Um adeus ao eterno: morre Hélio Delmiro

Hélio Delmiro

Hélio Delmiro

Estou aqui para escrever sobre a morte de um desconhecido do grande público. E do médio também. Mas um herói do pequeno público de músicos e aficionados que hoje, com certeza, estão aflitos.

Esse astro meio diminuto é Hélio Delmiro, expoente global da guitarra, violão e do samba-jazz – da época que a música brasileira tocava corações e mentes mundo afora, com camarins pequenos e grandes plateias. 

Para que entendam os desavisados, assim como dizem que se Deus cantasse o faria pela voz de Milton Nascimento, seria Hélio Delmiro aquele obrigado a emprestar os dedos caso o homem lá de cima resolvesse, num capricho, tocar violão.

Dito isso, terei de recorrer, mais uma vez, ao péssimo hábito de ficar listando feitos grandiosos de homenageados, o que no caso de Delmiro, é inevitável. Suas parcerias são a tradução da sua grandeza e da sua monstruosa genialidade.

Acompanhou a americana Sarah Vaughan nos discos: “Exclusivamente Brasil” e “O Som Brasileiro de Sarah Vaughan” (pois é, camaradas) e ainda o tecladista Clare Fischer. Esteve ao lado de Tom Jobim (na obra-prima “Elis e Tom”) e de Milton Nascimento (assistam no YouTube para flagelar a mediocridade: “Para Lennon e McCartney”, na turnê “Milton Ao Vivo” de 83).

Tocou com Elizete Cardoso, Clara Nunes, César Camargo Mariano (com quem gravou “Samambaia”, disco que é referência da música instrumental brasileira), com Arthur Verocai (sim, naquele álbum de 72, que os rappers americanos sampleiam). Formou também aquela que é considerada a melhor banda da história ao lado de Elis Regina e cia ltda. Acompanhou ainda Elza Soares, João Bosco, João Donato, Carlos Lyra, Marcos Valle, Wagner Tiso, Nana Caymmi e outros veneráveis.

Porém, como sabemos, o destino dos gênios no Brasil é a tragédia.

Hélio esteve ao lado dos maiores (foi um dos maiores) e mesmo assim, neste país que não é sério, foi parar na prisão. Preso pela miséria mais abjeta: não ter uns míseros trocados para pagar pensão alimentícia. Ficou, aos 60 anos de idade, meses na cadeia, até que Lulu Santos pagou a fiança de 05 (sim, cinco!) mil reais.

Além de ter acompanhado gigantes da música, Hélio Delmiro construiu uma carreira solo muitíssimo admirável. Sem o mesmo reconhecimento de seus parceiros ilustres, é verdade, mas foi com essa música – sua música – que ele trabalhou até o fim, tocando em circuitos menores, até não ter mais saúde para isso e morrer aos 78 anos de idade.

Enfim, estou enferrujado e o máximo que posso fazer é uma breve caricatura de homenagem. Mas nem nos meus melhores dias (se é que existiram) conseguiria erguer algo à altura do talento e da relevância de Hélio Delmiro para a música brasileira e mundial.

Escrevo, portanto, porque Hélio me deu alegrias, que compartilhei com caros amigos num saudoso tempo. Um exercício de gratidão que tenta atenuar o tom menor da perda. Um registro.

Obrigado, mestre!

Um abraço para os amigos Vita, Ratão, Renato, João Gabriel, Júlia, Crisim e tantos outros, parceiros de Delmiragens. 

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