A vitória dos trabalhistas foi realmente esmagadora?

A vitoria dos trabalhistas foi realmente esmagadora

O Reino Unido foi às urnas ontem escolher seus representantes para o Parlamento nas suas eleições e quem venceu foram os trabalhistas, que não ganhavam as eleições desde 2005. O tamanho da vitória impressiona: 414 cadeiras das 650 no Parlamento, mas esse número engana.

Se olharmos apenas para os números das cadeiras eleitas no Parlamento, de fato, foi uma vitória impressionante, mas existem outros fatores que merecem ser observados nisso tudo. Quais?

O primeiro, mais evidente, é que a grande narrativa das eleições foi o Partido Conservador chegando no fundo do poço. Depois de anos de políticas fracassadas de austeridade e de caos político, o eleitor do Reino Unido deu um basta nisso tudo e resolveu cobrar a fatura nas urnas.

Quando olhamos para o voto popular, o cenário fica mais claro. Os trabalhistas tiveram 33% do voto popular, uma votação muito abaixo do que as pesquisas projetavam e ainda tem um detalhe: apenas 1% acima do que tiveram na derrota que sofreram em 2019.

Além disso, o partido ainda sofreu perdas importantes na votação para candidatos à esquerda representados pelo Partido Verde ou candidatos independentes. Para terem uma ideia, no distrito do agora primeiro-ministro Keir Starmer, ele venceu com metade dos votos que tinha vencido nas eleições de 2019.

Isso tudo é resultado de um processo de guinada à direita dos trabalhistas desde que Starmer assumiu a liderança, o que o fez perder uma base eleitoral de esquerda do partido que tinha sido reacesa anteriormente com a liderança do socialista Jeremy Corbyn.

Starmer iniciou a sua liderança dos trabalhistas reconhecendo a importância do trabalho do Corbyn, mas depois foi abandonando o ex-colega, passou a advogar cada vez mais por posições mais centristas a ponto até de desencadear uma onda de expurgo do partido de alas mais à esquerda. Isso tudo contribuiu para esse desempenho aquém do esperado.

E por que essa reflexão é importante? O partido Reform UK, um partido da extrema-direita herdeiro comandado por Nigel Farage, cresceu bastante nessas eleições, teve 14% dos votos totais e está em vias até de ocupar o espaço deixado pelos conservadores depois dessa derrota.

O terreno mais fértil para o crescimento da extrema-direita é justamente diante da falência dos partidos tradicionais e a tarefa nas mãos dos trabalhistas é enorme. Precisam acabar com as políticas de austeridade que colocaram o país de joelhos desde 2010, precisam reconectar o governo com o povo pobre e precisam mostrar que há saída na política para os seus problemas.

O desempenho abaixo das projeções já é um alerta, mas o mais preocupante agora é o risco de um governo com uma roupagem de esquerda tocando a agenda das elites locais e globais enquanto é mais um ator na destruição da confiança popular no voto e na participação democrática, algo que já tem se tornado comum nessa época e que pode escancarar de vez os limites da democracia liberal.

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