Por Marcos Andrade – A ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no final dos anos 1970 pode ser compreendida como a continuação e o agravamento do desmantelamento do poderoso movimento popular e trabalhista brasileiro, um projeto que havia sido iniciado com o Golpe Militar de 1964.
Esta é uma perspectiva crítica que sustenta que o chamado “novo sindicalismo” agiu como um agente de desorganização, que, sob a bandeira sedutora da autonomia, facilitou os objetivos da elite empresarial brasileira e do imperialismo estadunidense de neutralizar a ameaça de uma base popular nacionalista e robusta.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943 não era apenas um conjunto de leis, mas a espinha dorsal de um projeto revolucionário com foco no desenvolvimento nacional soberano.
A essência do projeto varguista, nesse sentido, repousava na tentativa de integrar e equilibrar o poder entre os fatores da produção. Nessa visão, o Estado — atuando através do essencial Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (e suas variações posteriores) — não era um mero tutor, mas sim um sócio-chave dos trabalhadores para lhes dar poder de barganha frente aos empregadores privados, que, por sua vez, detinham a maior parte do capital. O Ministério do Trabalho, com suas Câmaras e Juntas, tinha o papel fundamental de regulamentar e fiscalizar as relações de trabalho, atuar na mediação de conflitos e fomentar a estrutura da organização sindical. Essa orientação colocava o movimento em rota de colisão direta com o capital estrangeiro e a elite empresarial brasileira alinhada a ele, tornando-o o alvo primário de 1964. Além disso, o imposto sindical obrigatório fornecia uma base financeira estável que sustentava uma vasta rede assistencial, garantindo a lealdade e a capacidade de mobilização popular em escala nacional. A ditadura reprimiu lideranças, mas deixou a estrutura de financiamento intacta, preservando o potencial de rearticulação da força nacional-trabalhista.
O PT e a CUT emergiram acusando o sindicalismo anterior de ser assistencialista e tutelado pelo Estado. No entanto, a aplicação prática da sua luta por “autonomia” focou-se na destruição dos mecanismos materiais de poder da classe.
Ao transformar o imposto sindical em inimigo ideológico principal, o PT/CUT desmantelou a espinha dorsal econômica do movimento, promovendo o financiamento voluntário, o que resultou na desidratação financeira permanente de milhares de entidades. Ao condenar o assistencialismo, o “novo sindicalismo” abandonou as ferramentas que mantinham o trabalhador comum vinculado, culminando no esvaziamento da capilaridade e na desmobilização popular. Assim, o PT e a CUT completaram o serviço de enfraquecimento que o Golpe de 1964 havia apenas iniciado, mas sob a legitimação da “nova esquerda”.
Essa desorganização interna garantiu que o movimento trabalhista da redemocratização não revivesse a força nacionalista e popular que a elite empresarial brasileira e o imperialismo tanto temiam. A marginalização de líderes ligados à tradição nacional-trabalhista (como o impedimento no registro do PTB por Leonel Brizola) ocorreu paralelamente à ascensão hegemônica do PT/CUT, sugerindo que o novo modelo era o menos assustador para o establishment.
As raízes ideológicas do PT/CUT, ligadas a setores da Universidade de São Paulo (USP) e à crítica anti-centralista, forneceram o verniz intelectual para justificar a luta pela desintegração do trabalhismo brasileiro.
A prova definitiva dessa neutralização, segundo a crítica, reside nas ações do PT no poder, especialmente após a “reforma trabalhista” de 2017 (Lei nº 13.467/2017), que é caracterizada por seus críticos como a destruição da CLT. Essa reforma, promulgada pelo governo Temer, promoveu a extinção da contribuição sindical obrigatória, formalizando o estrangulamento financeiro do sindicalismo brasileiro — medida que foi a materialização da luta ideológica promovida durante décadas pelo “novo sindicalismo” do PT e da CUT contra a estrutura de financiamento varguista. O ponto crucial da crítica é que, mesmo no retorno ao poder em 2023, o PT sequer tentou por abaixo a última “reforma trabalhista”. Não houve um esforço coordenado para revogar a lei integralmente ou restituir a base de financiamento das entidades, que havia sido a espinha dorsal da capacidade de mobilização e resistência do movimento.
Esta inação é vista como a confirmação final da tese do “Cavalo de Troia”. O partido que emergiu acusando a CLT de ser o “AI-5 dos trabalhadores” e lutou contra o imposto sindical, aceitou a consolidação de uma reforma que, na prática, desmantelou o poder econômico do sindicalismo. Além disso, o partido não reverteu as privatizações de empresas estratégicas como a Companhia Vale do Rio Doce e a Eletrobrás, nem restituiu o monopólio estatal do petróleo ou a estabilidade decenal no emprego. A manutenção dessas estruturas e a não-reversão demonstram o abandono prático dos princípios nacionalistas e de soberania econômica defendidos pelo trabalhismo histórico.
A crítica do PT/CUT à CLT, ao classificá-la como o “AI-5 dos trabalhadores”, serviu como o golpe retórico final para justificar a sua luta contra um movimento que era o principal bastião de poder coletivo e de caráter nacionalista no país.
Por Marcos Andrade
Engenheiro e mestre em educação
