Kamala Harris e o prazer da ilusão

Kamala Harris

Kamala Harris

Kamala Harris e o prazer da ilusão
Por Diogo Fagundes.

Althusser costuma simplificar a posição materialista em filosofia com a seguinte máxima: evitar iludirmo-nos. E como é fácil e gostoso, talvez incontornável, viver com ilusões! Não necessariamente religiosas: o que não faltam são contos da carochinha “laicos” que contamos a respeito de nós mesmos e nossas relações e expectativas. Por isso o marxismo e a psicanálise seriam, para o filosofos francês, duas das criações mais importantes da história do materialismo — o que certamente não blinda nenhum marxista ou analista do risco de se apartarem do real em nome de ideais ilusórios.

Essa questão do prazer, pela auto-ilusão, desta verdadeira paixão (Lacan chamava-a de “paixão pela ignorância”, e a considerava a mais fundamental e poderosa de todas) vem à mente quando constatamos as reações de parcela considerável da esquerda brasileira à “novidade” Kamala Harris.

Com toda a experiência Obama — alguém de passado e ideias muito mais vinculadas ao progressismo do que Kamala, que é mais conservadora que Biden –, não aprenderam nada? Por que essa compulsão por alimentar falsas esperanças, esse frenesi por se agarrar à primeira oferta do mercado eleitoral com aparência mais simpática? E pior: por que mascarar tudo isso sob o véu de um ideal emancipatório (libertação das mulheres negras) fake?

Eu lembro que, quando da eleição do Biden, intelectuais de esquerda diziam que estavam abertas as condiçõs para um mundo de maior paz e mais justiça. Quando eu discordei, dizendo que a tendência mais provável era o aprofundamento do militarismo, um professor chegou a ficar tão bravo com minha falta de fé a ponto de me bloquear nas redes.

Certo, eu consigo compreender por que alguém prefere Kamala a Trump ou elogia aspectos do governo Biden (de fato, tem vinculação com o sindicalismo e políticas econômicas e sociais à esquerda do habitual), mas quando vemos tanto entusiasmo com um agrupamento responsável pelo financiamento, acobertamento jurídico e apoio político, ideológico e militar a um dos maiores massacres coloniais da nossa época (e tudo ao vivo, acompanhado por redes digitais!), me questiono qual o valor que a vida dos palestinos possui para estas pessoas. São lateralidades lamentáveis, mas sem tanta relevância. É a ideologia do narcisismo ocidental que se ouve por trás de todas essas vozes razoáveis e realistas.

A verdade é que o ressurgimento e a força atual da extrema-direita teve, como corolário negativo, a enorme expansão do medo no campo da esquerda. E o medo é o afeto mais anti-político possível: nada de bom jamais saiu dele. Sob o efeito do medo descontrolado, abre-se espaço para a adesão ou busca patética por qualquer pretenso salvador da democracia, qualquer imperialismo benévolo e de boa consciência. O resultado final é a celebração da impotência, o rame-rame puramente defensivo da “luta contra o fascismo” sob o guarda-chuva do pior denominador comum e a ausência de projetos alternativos ou visões generosas de futuro.

Amigos, tenham cuidado com os mercadores das ilusões! O que vocês obterão, após uma agitação febril causada por uma sensação de engajamento, é apenas frustração, numa ciclotimia cansativa e sem futuro. É bastante contraditório, uma tarefa sem promessa de êxito, combater a depressão endêmica da juventude ao mesmo tempo em que se celebra qualquer aggiornamento em cores novas da repetição da miséria política dominante há quatro décadas.

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