Entre o Celtinha e a Ferrari

Entre o Celtinha e a Ferrari

Por Fabio R. Saez Sola – Acompanhando a eleição para a prefeitura de São Paulo, confesso estar intrigado com o sucesso do ex-coach entre os mais pobres. Ao assistir um episódio do “Desce a Letra Show” com o humorista Tiago Santineli, veiculado no YouTube, peguei uma interessante pista: “a periferia não quer ter o Celtinha do Boulos e sim a Ferrari do ex-coach”. Isso me disparou reflexões de historiador e sociólogo, daquelas que quase sempre me rodeiam.

Jânio Quadros impôs um estilo de fazer campanha política que perdurou de 1960 até agora: parecer ser do povo. Jânio Quadros, um advogado que era professor de geografia no colégio da elite paulistana Dante Alighieri, buscava ficar, ao menos simbolicamente, no mesmo nível dos seus eleitores, já que o pobre ascender era inimaginável: comia pão com mortadela, trajava ternos simples em que espalhava talco nos ombros (simulando caspa) e torcia para o Corinthians. Foi eleito com ampla votação: 48% dos votos válidos. Além da façanha eleitoral, Jânio fez uma marca: dali em diante, todo político em campanha teria um certo pudor em ostentar riqueza. Tornou-se “obrigatório” o ritual da comilança de pastel em feiras livres, salgado de vitrine de padaria, pingado e outras iguarias pelos políticos candidatos. Como bem cantava o saudoso Bezerra da Silva em “Candidato Caô Caô” (1988):

“Ele subiu o morro sem gravata,
Dizendo que gostava da raça,
Foi na vendinha bebeu cachaça […]
Foi no meu barracão e lá usou lata de goiabada como prato,
Eu logo percebi é mais um candidato,
Para a próxima eleição”.

Um corte para o século XXI. A explosão do consumo ocorrida no primeiro Governo Lula (2003-2006), que catapultou milhões de pessoas à classe C, foi responsável por grandes mudanças de visão entre as pessoas das periferias e comunidades. Um dos aspectos culturais mais notável foi a ascensão do famigerado funk ostentação, onde as tradicionais temáticas obscenas ou do mundo do crime foram suplantadas por letras exaltando grifes de luxo, joias, viagens internacionais, carros de altíssimo padrão e a personalidade de bilionários. Acrescento à essa mentalidade que surgiu com o aumento no padrão de consumo a teologia da prosperidade, que ocupa a centralidade das igrejas neopentecostais. Outro detalhe importante nessa discussão é lembrar que a classe C tem grande volatilidade, está sempre assombrada pela possibilidade de voltar à classe D, sendo sensivelmente afetada pelas políticas econômicas adotadas pelos governos.

É compreensível o tamanho do apelo que a riqueza tem entre o povo. O Brasil é um país de estrutura elitista. Tão elitista que os liberais brasileiros desejam o Estado mínimo para o povo, aflito em suas necessidades, mas máximo para si mesmos. O cidadão pobre no Brasil geralmente é descendente de negros e indígenas que foram escravizados. No nosso país, nem pobre gosta de pobre. Pois os pobres têm acesso ao que há de pior na sociedade. Com a ascensão econômica significativa, porém insuficiente, surgida nos anos 2000, a ideia de riqueza passou a girar nos corações e mentes periféricas. O político parou de precisar descer à pobreza, o pobre é que passou a ter a ilusão de poder subir ao nível dos bilionários.

Como professor de escola pública, noto essa troca de foco na indumentária dos alunos (que sempre vestiram falsificações das grifes). Até o início dos anos 2000, era sempre de grifes de classe média, como Nike, Reebok, Adidas etc. O pobre busca legitimação social com os símbolos de ascensão que vê na elite. Com a “ostentação”, versões fake passaram a imitar marcas de luxo – e dá-lhe Gucci, Versace, Rolex, Louis Vuitton, Audemars Piguet, Balenciaga e outras. São cópias dos outfits inalcançáveis, dos muitos ricos.

O ex-presidente uruguaio, José Mujica, disse à BBC (2018) “conseguimos, até certo ponto, ajudar essa gente (pobres) a se tornar bons consumidores. Mas não conseguimos transformá-los em cidadãos”. Claro que desejo muito a ascensão econômica de todos os brasileiros humildes, porém, como afirmava o patrono da educação Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se o opressor”. Uma certa melhora econômica que veio desacompanhada de fortalecimento da educação, de combate ao racismo e intolerância religiosa, certamente não foi totalmente positiva.

Para encerrar essas breves linhas, cito uma fala recente do Marcelo D2, famoso rapper carioca: “a favela não venceu”. As comunidades carentes continuam sem as estruturas básicas de sobrevivência, sem segurança social e alimentar, sem saúde, sem paz. Mas veste roupas piratas de grife e vê nos bilionários um exemplo a ser seguido.

Por Fabio R. Saez Sola

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