A direita não está entendendo nada

A direita nao esta entendendo nada

Há uma narrativa construída por Olavo de Carvalho de que a teoria e a prática malignas do wokeismo seriam consequência de uma guerra cultural gramsciana-frankfurtiana, que primeiro tomou a universidade pública, depois a mídia, depois a cultura. Isso é falso.

A primeira vítima desse ambiente foucaultiano — e não frankfurtiano — que tomou as ciências humanas foi o próprio marxismo. Não há praticamente mais marxistas em faculdades públicas de economia, filosofia, psicologia, e são raros mesmo em história e ciências sociais. Hoje estão ilhados nos cursos de Serviço Social. As humanas brasileiras foram tomadas por um relativismo anticientífico, de baixíssimo nível intelectual e completamente amoral.

A versão olavista ganha verossimilhança porque acerta no ambiente irradiador da degradação e nos precursores intelectuais do atual esgoto pós-estruturalista: a Escola de Frankfurt. Mas erra por ser uma narrativa política, uma arma na guerra cultural, sem preocupação com a verdade. As “teorias críticas” atuais, como a Critical Race Theory, não são marxistas ou frankfurtianas, mas foucaultianas, nascidas nas universidades norte-americanas.

As ideias de Foucault e dos pós-modernos franceses como Lyotard, Derrida e Guattari não se espalharam pelo Ocidente apenas pela força de sua persuasão, que aliás é pequena. A maioria de seus repetidores não entende muito do que citam.

Essas correntes foram regiamente financiadas e protegidas, primeiro pela CIA, depois por fundações acadêmicas e posteriormente pelas próprias universidades norte-americanas, antes de serem difundidas globalmente por fundos como o de George Soros e a Fundação Ford.

O início desse processo está fartamente documentado em arquivos desclassificados da CIA, analisados pela pesquisadora Frances Saunders (2000) em Who Paid the Piper? The CIA and the Cultural Cold War. O objetivo inicial da agência era promover ideias anti-soviéticas no seio da esquerda.

O lixo intelectual produzido pelo pós-modernismo, no entanto, mostrou-se mais útil. As fundações do sistema financeiro viram nele potencial para: destruir a pesquisa empírica no campo das humanidades no terceiro mundo, corroer valores tradicionais que limitam a expansão do capital pela cultura, fomentar separatismos, produzir ódio racial, requentar ressentimentos de identidades esquecidas e enfraquecer Estados nacionais.

Hoje, as três principais correntes políticas do Ocidente são vítimas desse financiamento bilionário: o marxismo foi substituído pelo relativismo na esquerda (a New Left), o liberalismo no mundo foi capturado por políticas woke e o ambiente corporativo por políticas ESG, e o conservadorismo enfrenta a concorrência de sua versão identitária e pós-moderna na Europa, o identitarianismo.

Acreditar que um grupo de professores medíocres e irracionais encastelados nas ciências humanas foi capaz de promover, por si só, uma mudança cultural contra o capital dentro do capitalismo é uma fantasia grotesca. Eles atuam em busca de bolsas de fundações; jornalistas aderem por pressões de suas editorias; e estas, por sua vez, respondem à pressão do sistema financeiro que as mantém vivas na era da internet. Plataformas de streaming e canais de televisão perdem audiência propagando essa cultura, mas continuam obrigadas a fazê-lo por seus financiadores.

A direita ainda não compreendeu o que está acontecendo porque insiste em encaixar tudo em sua narrativa de demonização da esquerda — exatamente como faz a esquerda em relação à direita. Enquanto isso, algo mais poderoso está em curso, atingindo não só o conservadorismo, mas também o marxismo e o liberalismo clássico.

Essa ideologia que aí está não é marxista, liberal ou conservadora. É pós-moderna, relativista, niilista: denuncia todos os valores da sociedade, o sagrado conservador, a liberdade liberal e a igualdade marxista. As pistas para identificar sua verdadeira origem e o objetivo de sua instrumentalização estão todas aí. Follow the Money: ele leva ao sistema financeiro e suas fundações.

Precisamos de um consenso mínimo entre as tradições políticas conservadora, liberal e marxista para salvar os valores básicos da civilização ocidental: o universalismo e a racionalidade, hoje erodidos por uma ideologia de efeitos sociais devastadores. Esse consenso deverá incluir a revisão da legislação de caráter anti-universalista aprovada nos últimos anos e o controle, pelos Estados soberanos, da atuação de ONGs que funcionam como máquinas de destruição política, cultural e acadêmica.

Finalmente, deveríamos encerrar, de uma vez por todas, a fonte última de todo esse mal: a ditadura do sistema financeiro que arruinou a economia ocidental e sua cultura.

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