O identitarismo não fala em nome de nenhuma multiplicidade de identidades, nenhuma diversidade social. Trata-se de um movimento absurdamente homogeneizador, autoritário, censor, maniqueísta e alienante.
Os identitários privilegiam uma identidade sobre todas as demais, e tentam anular estas últimas, torná-las irrelevantes no plano social e cultural. Eis aí a ”pegadinha” por trás do estatuto da igualdade racial, que reduz todos os mestiços a uma ideia importada de africanidade que contraria a experiência histórica brasileira.
Como não consegue se justificar por meio da construção da sociabilidade e das identidades na nossa história, o identitarismo precisa retratar esta última como uma sucessão de erros, violências, opressões realizadas por “brancos”, e que tem de ser apagada e superada, substituída em nome de uma utopia também importada de outras pragas: a experiência multi-étnica e segregacionista norte-americana.
Desse modo, o identitarismo propõe combater as chagas da nossa sociedade não pelas positividades encontradas na civilização brasileira, e sim pelos fracassos patentes observados entre os ianques, fracassos esses elevados à regra e modelo diante do qual todas as demais populações tem de se adequar sob pena de serem consideradas bárbaras e atrasadas.
O diálogo com o identitarismo é impossível, pois seus militantes são formados em uma estratégia que une monopólio da virtude [e o mais extremado moralismo] e do discurso legítimo [“lugar de fala”], e que faz da violência e do cancelamento do divergente sua principal tática. É a ditadura do pensamento único, que destrói a possibilidade de objetividade ao tornar o próprio conhecimento e objetividade funções de identidades raciais, de gênero e de sexualidade. O extremo puritanismo associado a essa estratégia, que leva à demonização do outro, é a expressão mais óbvia do sectarismo de fanáticos que confundem suas opiniões e ações com a ideia mesma de Bem.
Essa seita de fanáticos, patrocinada por grandes empresas e pelas finanças dos centros capitalistas, são aríetes contra todas as identidades que sirvam de base para a contestação da distribuição de propriedade e da espoliação global. Não se fala mais de direitos dos trabalhadores, de luta de classes, e se considera o imperialismo uma noção defasada. A utopia identitária é uma sociedade rentista, forjada no mais radical neoliberalismo, e cuja população está dividida em nichos de identidade sexual, racial, étnica etc. cada vez mais fragmentadas e que disputam entre elas as migalhas que caem da mesa da elite social global.
