O campo brasileiro de ideias e atitudes

O campo brasileiro de ideias e atitudes

Há um campo de ideias e atitudes políticas, sociais e culturais que convém chamar de brasileiro. Nele, circulam intelectuais, artistas, cientistas, acadêmicos e comunicadores convictos e interessados em ver no Brasil um povo, uma gente, uma civilização singular e original. São proponentes ou manifestantes de um ponto-de-vista brasileiro. Se falo de um campo de ideias e atitudes, é porque não se trata de um movimento ideológico, uma corrente de opinião e muito menos de um partido político. Ele mais concerne a um espaço de atuações variadas e enquadramentos de mesma família com respeito a problemas nacionais e formas de abordá-los do que uma galvanização episódica para um ativismo casual. O campo, contudo, precisa ser reconhecido. E, com ele, o vocabulário de uma contra-elite nacional engajada precisa ser enriquecido.

Apesar de relativamente vagos, os contornos desse campo têm sido cada vez mais realçados por um traçado sincero. Porque o ponto-de-vista brasileiro é defendido por gente que sabe bem o que não quer e quais desafios ela precisa enfrentar. Hoje, os desafios passam pelas sabotagens premeditadas ou inconscientes que são fabricadas contra a nação brasileira e sua identidade.

Uma dispersão, contudo, o ameaça. Os atores do campo brasileiro são intimidados, constrangidos e amordaçados por agentes e circunstâncias hostis. De um lado, os porta-vozes do identitarismo – a corrente de opinião do esquerdismo, falsamente progressista, que é semeado nas universidades públicas e disseminado pela imprensa de amplo alcance – o acusam de qualquer coisa que soe extrema direita. Isso porque o ponto-de-vista brasileiro se recusa a priorizar as identidades sociais fragmentadas à unificada identidade brasileira, ao passo que todo o heroísmo identitário é atribuído a grupos sociais minoritários e oprimidos em suposta resistência à suposta homogeneidade do opressor empreendimento-Brasil.

De outro, a própria extrema direita – que é reativa ao identitarismo e que monopoliza a sensibilidade do brasileiro médio não-contaminado pelas sandices universitárias contemporâneas – o acusa de complacência com o esquerdismo wokista. Isso porque o ponto-de-vista brasileiro não aceita que a resolução de problemas nacionais se dê sobre a base de simplismos punitivistas – e eventualmente sádicos – que pesam contra integrantes de classes e grupos desfavorecidos ou excluídos. Querem eles menosprezar o fato de o Brasil ter sido o último país a abolir a escravidão, um dos que mais pune as mulheres por serem mulheres e que mais mata homossexuais. Perturbado pelo poder das hipnoses eleitorais, o fecundo campo brasileiro sofre com essa erosão de falastrões sem-rumo.

A verdade é que nunca foi fácil defender o ponto-de-vista brasileiro. Seus inimigos são inimigos desde as épocas de José Bonifácio, de Oliveira Vianna, de Celso Furtado… eles permanecem hoje a manifestar, pelo ressentimento e pelo medo – duas víboras que se aninham onde falta imaginação –, suas estratégias de embotamento alheio. Mas tem havido um movimento recente que é favorável ao campo, ao menos na enodoada academia nacional – o que, vale dizer, não ocorre com mesma espontaneidade na imprensa. Muita gente está insatisfeita com o identitarismo, com o bolsonarismo e com a impossibilidade de se poder conversar sobre o Brasil sem ser esmagada pelas calúnias que esses ismos cultivam. Não raro, essa mesma gente descobre em figuras nacionais, que falam em nome do Brasil, sobre o Brasil, de qualquer canto particular do Brasil, esperançosos balões de oxigênio.

O ponto de vista brasileiro não é necessariamente nacionalista. Ele se baseia na consciência de unidade nacional e na singularidade do Brasil, sim, mas não precisa se afirmar como nacionalista, muito menos proferir um discurso especialmente ufanista. Ele não compactua com revanchismos xenofóbicos, nem é repulsivo ao produto de nações outras (colonizadas ou imperialistas). Ele, tampouco, ama a estética canarinho ou isebiana dos anos 50 – no máximo a tolera.

A consciência que o anima não busca a unidade em fontes como a narrativa das três raças ou outras hipotéticas raízes nativas, ainda que aceite a discussão sobre o assunto e recombinações da coisa. Mas, ao contrário, o ponto-de-vista brasileiro que temos visto energizado parece evocar o passado do Brasil à luz de intuições ensejadas pela questão: quem queremos ser, nós, essa unidade singular do mundo moderno, dadas as pistas do que temos sido? Que valores precisamos perseguir para realizarmos o valor da nacionalidade brasileira, por meio da qual outros valores, mais sublimes, serão endossados? Ou seja, as fontes brasileiras estão no futuro, não na formação histórica pregressa.

É por tudo isso que o campo brasileiro é irredutível a um partido político. Aliás, em seu interior, coexistem diferentes agendas políticas, sociais, culturais e econômicas. Em uma área deste campo, alguém enfatiza a busca pela prosperidade nacional por meio de uma economia centrada em maior participação da indústria no PIB. Em outro, alguém prioriza o florescimento das pessoas e de sua espontaneidade por meio de um recorte de enaltecimento das formas de vida da miscigenação e do sincretismo que constituem parte expressiva de nossa formação. Acolá, alguém almeja maior liberdade e maior igualdade por meio de uma perspectiva reformista das instituições nacionais para torná-las mais estáveis. Outros podem se orientar pelo esforço em meio a uma luta para superar o estado de mimetização a que as elites sujeitaram o país ao longo de nossa história nacional, em querendo empurrar ao Brasil hábitos, estéticas e formas de organização estrangeiras. Abundam, por certo, aqueles que pensam que devemos apostar nas áreas em que somos um exemplo para o mundo, como o futebol e a canção popular, para forjar uma identidade nacional da qual termos mais orgulho. E não para por aí.

Pode haver muitas coisas que não são necessariamente conciliáveis; testemunhe-se a heterogeneidade do campo. Não se segue disso, contudo, que o campo brasileiro deva sempre carecer de uma interpretação política que as abarque ou que as costure. É necessário que haja um impulso de mobilização popular e de alavancagem ao poder, e não só com candidaturas políticas de nível nacional, para que o campo consolide o seu lugar na cultura brasileira e no debate público. Mas sobretudo é preciso que o campo se reconheça enquanto tal. Que não se veja apenas por oposição a identitários ressentidos ou a direitistas amedrontados e odientos e mesmo assim insista no não aos acintes e às difamações de ambos. Que estimule lideranças dos mais diferentes setores a introduzir e diversificar um vocabulário brasileiro de tratamento de questões brasileiras, mesmo que em instâncias municipais, de bairro, de rua. Que recuse caricaturas do ser tupiniquim – que parecem enfeitiçar cultores e intelectuais – e que se permita crescer admitindo e metabolizando as contradições do brasil profundo radicalmente. Em suma, que o ponto-de-vista brasileiro seja exercido como uma forma efetiva de o Brasil vivo firmar um pacto consigo mesmo.

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