Quando da vitória de Trump, escrevi que os EUA entravam em uma fase cesarista. O Presidente acumulava tantos poderes e em esferas tão importantes que poderia capitanear uma revolução populista no país.
As mudanças, por sua vez, não seriam nenhuma novidade caída dos céus. A tradição populista nos EUA vem de longe, tem raízes na primeira metade do século XIX. O país está buscando em seu passado e forças internas a solução para os desafios que enfrenta com a perda de centralidade industrial e o fim do momento unipolar.
Como Trump não é Bolsonaro, isto é, um mero falastrão sem vocação para o exercício do poder, já mostrou logo no primeiro dia de governo sua disposição para se tornar um marco na política ianque. Operação militar na fronteira, saída dos EUA do Acordo de Paris e da OMS, ordens executivas de redefinição da cidadania norte-americana e de controle do funcionalismo federal, exigência de declaração do sexo biológico em documentação oficial, cortes em programas universitários vinculados à política pós-pós etc. O conjunto deixou a esquerda ocidental de cabelos em pé e olhos marejados, e é praticamente uma declaração de guerra à ideologia woke a partir de seu principal centro de difusão.
Muitos latino-americanos veem com bons olhos a guinada conservadora nos EUA, mas não convém se entusiasmarem muito. Trump mandou recados muito claros de qual seria sua política externa para a região que os EUA tradicionalmente encaram como quintal geopolítico. A mesma tradição oitocentista ressuscitada pelo trumpismo adere de modo muito estrito à Doutrina Monroe. E se quiserem de fato fazer frente à ascensão chinesa, os norte-americanos não podem se conformar com a hegemonia comercial que a nova superpotência conquistou em nosso subcontinente.
O princípio do America First, medidas aparentemente demagógicas como rebatizar o Golfo do México, declarações de que o Brasil precisa muito mais dos EUA do que o contrário etc. são sinais de que esta fase cesarista será acompanhada de intervenções nada sutis na região que os estrategistas ianques consideram a principal fortaleza geopolítica do país. Se ameaçou o Canadá antes mesmo de tomar posse, imagina o que passa na cabeça de Trump em relação aos pobres aqui do Sul.
A politica formal brasileira age nesse momento de modo subordinacionista em relação aos ventos que sopram nos EUA, um fenômeno que tenho descrito como ”americanização da politica nacional” e que tem chegado a níveis de submissão alarmantes. O problema ocorre tanto à esquerda, com sua imitação canhestra da militância mais radical do progressismo desmiolado dos Democratas, como também à direita, cujo núcleo central se transformou em mera caricatura das táticas de propaganda do trumpismo.
A submissão aos ditames ianques não cessa nos partidos políticos: os intelectuais esquerdistas incrustrados em universidades e na grande mídia, e os pastores evangélicos que aprendem teologia sob a égide do sionismo dispensacionalista ianque são duas faces da mesma moeda, aquela que pensa os destinos do país a partir dos interesses que vigoram momentaneamente no grande irmão do norte.
Trump é uma oportunidade para que o país redescubra um caminho próprio, que atrele os valores populares a uma posição soberanista que confronte qualquer tentativa dos EUA de nos colocarem sob seu guarda-chuva político-economico e ideológico. À America First, devemos responder com Brasil em primeiro lugar.
Só que a Nova República é, desde o início, um grande aparato de desperdício de oportunidades de engrandecimento nacional. Ela nasce disposta a negar o Brasil-potência e cumpre à risca a sabotagem que realiza há quase duas gerações. Ameaçada pela democratização da sociedade brasileira, descobriu no STF um refúgio para manter as instituições em rédeas curtas. Essa nova institucionalidade autoritária terá problemas com o trumpismo porque atrelada à ideologia progressista dos Democratas. O ideal é que fosse uma fase superada pelos próprios brasileiros, e em nome de uma ideologia conservadora e populista atrelada às nossas próprias raízes culturais.
