Por Carlos Eduardo Martins – Vi ontem a entrevista do José Dirceu ao Juca Kfoury.
Dirceu fala coisas incriveis do tipo “a população brasileira está politizada” e deixa escapar contentamento com o surgimento de partidos de direita estruturados, que imagina poderem ser um dique de contenção do bolsonarismo.
Sua pretensão é que a direita, ao se tornar um ator importante de uma sociedade civil organizada, contenha o populismo de direita bolsonarista, atue para manter a institucionalidade e permita ao PT manter sua fatia no sistema representativo, garantindo o acesso às recompensas materiais que oferece para a reprodução da organização, seus dirigentes e militantes, como fundo partidário, cargos, empregos e comissões.
Sua reflexão revela muito a real estratégia do PT: Ser um partido da ordem, sem ameaçar os grandes interesses e prerrogativas das estruturas de poder vigentes. O Partido dos Trabalhadores é concebido assim como uma corporação, uma empresa política que precisa sobreviver e para isso deve garantir as regras de funcionamento do mercado politico autoregulado, evitando intervenções estatais perturbadoras da competição partidária.
O calculo dele, que é o do Lula, é o seguinte: se formos um partido da ordem e eliminarmos alternativas à esquerda, não há razão para o golpe de Estado. A direita fica contente, nós ficamos contentes, e repartirmos o butim.
É uma especie de solução kautskiana do conflito social na periferia dependente: o supersubimperialismo. Um truste da superexploração unindo capital financeiro, capital industrial ( em posição rebaixada), agronegócio, militares e finalmente a tecnoburocracia de origem operária.
O grande problema desse cálculo é que a população vai buscar alternativas na extrema-direita populista, isto é, fascista, e estes vão querer controlar o poder político para ter uma inserção na sociedade civil burguesa que não podem alcançar pelo mercado.
Por Carlos Eduardo Martins (UFRJ)
