O fim da onda evangélica no Rio de Janeiro e expansão das religiões afro-brasileiras na cidade

O fim da onda evangelica no Rio de Janeiro e expansao das religioes afro-brasileiras na cidade

A cidade do Rio esteve na vanguarda do crescimento do evangelicalismo. A terceira onda de Freston bebeu da linguagem estabelecida pelo neopentecostalismo da Igreja Universal do Reino de Deus [IURD], surgida em terras cariocas.

Também partiu daqui o fenômeno Silas Malafaia, com sua leitura da teologia da prosperidade.

Impressiona, portanto, que o Rio de 2022 tenha proporção de evangélicos menor que a média nacional, fruto do crescimento pequeno deste grupo nos últimos doze anos.

Os evangélicos saíram de 23% para 25% dos cariocas entre 2010/22, expansão média de 0,18% ao ano [em proporção da população], menos da metade da média nacional [0,39%].

Isto significa que o Rio é pioneiro também do fim da onda evangélica.

A situação do catolicismo-romano tampouco tranquila na cidade. O grupo continuou caindo no mesmo ritmo nacional, cerca de -0,7% ao ano, descendo de 51% para 43%. O Rio deixou de ser majoritariamente católico-romano, ainda que não exista qualquer risco de que esta religião deixe de ser a dominante entre os cariocas.

Que religiosidade cresceu? Além das “outras religiões”, que chegaram a 6%, e dos “sem religião”, que bateram 16%, o Rio viu a expansão significativa da umbanda e do candomblé.

Quem acompanha meu Facebook sabe que eu previa este “boom” há anos. O Censo confirmou as impressões que eu tinha ao andar pela cidade.

A proporção de espíritas declinou de 5,9% para 5,1%. Mas a de umbandistas/candomblecistas triplicou de 1,2% para 3,6%.

Há uma intersecção muito poderosa entre os termos “espírita” e “umbanda”. No Rio, espírita nem sempre se refere aos seguidores de Kardec [“kardecistas”], também chamados pelos mais antigos entre nós de “centros de mesa branca”. É comum que tendas e centros espíritas sejam, na verdade, terreiros e práticas de umbandas e candomblés.

Por isso, o declínio espírita deve ser relativizado. Pode ser que sejam os mesmos religiosos se assumindo como “macumbeiros”.

Mas isso não é suficiente para explicar a expansão das religiões afro-brasileiras na cidade. O conjunto de espíritas somados a umbandistas/candomblecistas saiu de 7,1% em 2010 para 8,7% em 2022. Há católico-romanos e evangélicos mudando de identidade religiosa.

Este crescimento continua em curso. Essa semana, um aluno me contou que, em sua comunidade na Penha, todos os conhecidos de infância se tornaram “macumbeiros” nos dois últimos anos.

O grupo espíritas/umbandas/candomblés certamente vai alcançar dois dígitos na cidade em 2030. O recorte de religiões afro-brasileiras, sozinho, vai gravitar para cerca de 6% dos cariocas.

E não será surpresa nenhuma que a fatia de evangélicos se retraia na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Marcas que, quando confirmadas no próximo censo, serão também profundamente simbólicas.

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