Por Adriano Camargo – Tem viralizado nos últimos dias nas redes sociais um vídeo de uma professora na UFMA que durante a aula, começa a cantar uma música e passa a rebolar mostrando o cú. Após as críticas, a professora diz estar ensinando com o cú. O que mais me chocou foram duas alas da esquerda: uma que defende o ato da professora como forma de “transgressão” e outra que acusa de “lacração que vai irritar a extrema direita”.
De um lado, temos uma esquerda travestida de moralismo, que no fundo se choca com o ato em si por ser no fundo tão conservadora quanto a extrema direita. Argumentos como “esse tipo de comportamento demonstra que a universidade não é um ambiente sério e que não respeita os valores morais”, que soaria como uma fala da extrema direita, foi viralizada por parte da esquerda. Como se não fosse papel da esquerda questionar os próprios valores morais de uma sociedade com medo de uma reação da extrema direita. Ter medo de chocar a extrema direita e seus valores morais é o caminho para que a esquerda se torne um puxadinho dela. Adotando esse discurso moralista reacionário, a longo prazo a esquerda estará junto com a extrema direita proibindo shows de funk, de bandas punk, acusando tudo de lacração. Imagina uma banda punk anarquista que queime a bandeira nacional durante um show, que absurdo; enquanto isso, a extrema direita não tem vergonha nenhuma de defender suas atrocidades e essa esquerda vai naturalizando o evangelistão. Começa com as pautas morais, até chegar na censura de outros debates, como uma crítica ao neoliberalismo; já que a crítica ao capitalismo a própria esquerda já censurou. O que deveria chocar a esquerda não é uma professora mostrando as partes intimas, mas como uma ala da esquerda tem naturalizado esse moralismo da extrema direita. Quem tem medo de chocar a extrema direita já deixou de ser de esquerda e nem sabe.
De outro lado, temos uma esquerda travestida de transgressora em que querem chocar por chocar, sem ter nenhuma mensagem transgressora no ato em si articulada com a realidade. Um ato desse faria sentido no fim da década de 60, durante os movimentos de contracultura em uma época de forte repressão à liberdade sexual; hoje o que temos é o oposto, a inclusão das liberdades sexuais em uma cultura do narcisismo* e via mercantilização destas. Essa esquerda “transgressora” age como o GG Allin, durante o show defeca no palco e arremessa no público. O ato em si vai gerar reações nas redes sociais, conteúdo para youtubers, textos falando do tema (inclusive o meu próprio) e no fim um debate sobre o tema em algum podcast de red pill. E a professora vai ficar famosa, poderá fazer palestras, provavelmente lançará um livro sobre pedagogia do cú, ou se quiser poderá participar de algum reality show ou ser a nova Sarah Winter, como defensora da moral e bons costumes.
Enfim, parafraseando Slavoj Zizek: “com uma esquerda dessas, quem precisa de direita”.
Ver “A cultura do Narcisismo” de Christopher Larsch.
Por A.C.
