O editorial do Estadão e Pablo Marçal: Segura que o filho é teu

O Editorial do Estadão e Pablo Marçal Segura que o filho é teu

O editorial do Estadão, “O Espectro do Niilismo Político“, faz uma crítica incisiva à ascensão de figuras como Pablo Marçal no cenário político de São Paulo. No entanto, embora acerte ao identificar Marçal como um sintoma de um processo mais amplo de rejeição à política, o editorial peca (e foge da sua própria responsabilidade) ao não examinar profundamente as causas estruturais desse problema, que estão diretamente ligadas às dinâmicas históricas e às contradições internas da burguesia brasileira, da qual o próprio Estadão é um representante e porta-voz.

A análise histórica é crucial para compreender o atual estágio da política brasileira. Voltemos a Getúlio Vargas (sempre ele…), que foi o responsável por um projeto nacional com alcance de longa duração, que logrou industrializar o país, criar os direitos sociais do povo brasileiro e forjar uma burguesia industrial a partir do capital acumulado pela burguesia agrária, a qual em grande parte se opunha a Vargas, como evidenciado pela Contrarrevolução de 1932 e a criação da USP como um instrumento de resistência ideológica pelos paulistas derrotados. Desse projeto nacional liderado por Vargas, surgiram figuras de alto nível intelectual e com uma visão de grandeza sobre nosso país, como Roberto Simonsen, que fundou a FIESP, a expressão política da burguesia industrial consciente (pelo menos naquele momento) de seu papel no desenvolvimento nacional do Brasil.

No entanto, essa mesma burguesia apenas tolerava a contragosto os compromissos sociais e democráticos que haviam sido estabelecidos por Vargas. Em 1954, a burguesia nacional derrubou Vargas para colocar no poder representantes conservadores e liberais para remodelar o projeto nacional iniciado em 1930, como Eugênio Gudin. Em 1964, ela não hesitou em apoiar o golpe militar que resultou na instalação de uma ditadura que, embora promovesse a industrialização, o fazia à custa de um arrocho nos direitos sociais e descontrolado endividamento externo. Essa fase foi marcada pela ascensão de figuras de elevada estatura política como Castelo Branco, Roberto Campos, Delfim Netto, Mario Henrique Simonsen, Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva, entre outros, que representavam um projeto nacional conservador, mas ainda assim um projeto que, por mais que restringisse direitos, tinha uma visão de desenvolvimento e independência para o país.

Entretanto, o que vemos agora é uma completa degeneração de qualquer projeto burguês para o Brasil. O Estadão, que historicamente sempre esteve alinhado aos interesses da burguesia nacional, agora critica o “niilismo político” que ele mesmo ajudou a criar. A histeria hipócrita contra o PT e contra a esquerda em geral foi fomentada exatamente por essa burguesia, que, ao perceber que não poderia mais vencer o PT no jogo político tradicional com seus representantes diretos instalados no restante do espectro partidário, lançou mão da estratégia da antipolítica, empoderando as corporações judiciais não-eleitas lideradas por elementos imorais como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol para combater os inimigos eleitos com perseguição policial, e apostando eleitoralmente em figuras que rejeitam a própria ideia de política, como João Doria, um funcionário da elite organizada no conglomerado de lobistas conhecido como LIDE. Além, é óbvio, do apoio envergonhado a Jair Bolsonaro, seus generais ladrõezinhos de relógios de ouro em Miami, e Paulo Guedes, o representante mais tosco do capital financeiro de rapinagem do orçamento público.

Por outro lado, e nisso o Estadão tem razão, o PT governou o Brasil durante 15 dos últimos 21 anos, e entregou um país muito pior do que o que pegou em 2003. Embora o partido tenha ascendido ao poder com uma retórica moralista que prometia acabar com a corrupção e promover justiça social, ele acabou se adaptando às práticas corruptas que tanto criticava, mas, principalmente, apenas deu continuidade às mesmas políticas econômicas da direita que o precedeu; austeridade fiscal, política monetária contracionista e assistencialismo com o que sobrar na rabeira do orçamento público (igualzinho os governos do PSDB, com a sorte de um boom de commodities). O partido, que prometeu transformar a política brasileira, sucumbiu às mesmas relações promíscuas entre o Executivo e o Legislativo, e entre o setor privado e o governo, que tanto criticava. A consequência disso foi que o PT, ao ser arrancado do poder, entregou um país em crise econômica profunda, com uma política muito mais degradada e desacreditada.

Pablo Marçal é apenas a manifestação mais recente desse processo de degradação política. Se Marçal for impedido de concorrer nas eleições ou até se for preso, e desaparecer do cenário político, outros surgirão em seu lugar, possivelmente ainda mais degenerados. Isso demonstra que Jair Bolsonaro não detém o monopólio da antipolítica; ao contrário, ele é parte de um movimento maior, alimentado pela própria burguesia que, por meio de veículos de comunicação como o Estadão, construiu o ambiente de destruição total da linguagem política no Brasil.

Enquanto o jornal denuncia o niilismo político, ignora seu próprio papel, e o da burguesia que representa, na criação desse cenário. Ao atacar apenas o PT e a esquerda, a burguesia não reconhece que foi ela própria quem, ao implodir a política institucional, abriu as portas para o surgimento dessa rejeição generalizada. A elite brasileira, incapaz de reformar-se, continua a fomentar a destruição das estruturas políticas que, paradoxalmente, sempre a beneficiaram, tal como fez com Getúlio Vargas, quando o projeto nacional dele colocava em risco quaisquer privilégios corporativistas de alguma fração da burguesia nacional.

O niilismo político criticado pelo Estadão é, na verdade, o resultado da falência de um projeto burguês que, ao longo de décadas, preferiu a tutela (militar ou judicial) à democracia, a concentração de renda ao desenvolvimento social, e a destruição da política institucional à reforma das suas próprias estruturas. Assim, figuras como Pablo Marçal são não uma aberração, mas a consequência lógica de uma estratégia elitista que só poderia conduzir ao colapso da própria política. Quem pariu Mateus, que o balance. Segura que o filho é teu, Estadão.

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