Este é tanto um relato pessoal quanto uma reflexão política. Assim que terminou o debate pela prefeitura de São Paulo na TV Gazeta (01/09), eu mudei para a Netflix e reassisti o episódio “The Waldo Moment” da série britânica Black Mirror. Nele, um comediante inglês dubla e comanda um desenho animado de um urso azul chamado Waldo. Para resumir, o personagem começa como um simples alívio cômico em um programa de televisão, até que entrevista um candidato ao parlamento inglês. À medida em que faz piadas chulas e debocha de quase tudo que o candidato propõe, Waldo se torna um fenômeno na internet e até o final do episódio passa a disputar as eleições, sendo bem votado e angariando apoiadores.
Já deve estar evidente que o gatilho para rever o programa foi a participação de Pablo Marçal no debate. Tal qual Waldo com suas piadas típicas da 5ª série, é de fato engraçado e curioso assistir Marçal atuar. Eu me peguei atento aos momentos em que o coach iria perguntar ou ser perguntado, por vezes até mais atento do que nas participações do meu próprio candidato. Qualquer absurdo pode surgir do sujeito, seja a gesticulação do M enquanto seu oponente discursa, seja a referência aos personagens do programa Chaves, entre outros. Ou seja, até mesmo eu, consciente do truque e cioso por propostas, acabei caindo!
Durante “The Waldo Moment”, o dublador de Waldo avisa seu produtor: “eu não sei nada sobre política”, no que seu interlocutor retruca “você não precisa saber, você é o alívio cômico”. Em outro momento, um agente do governo americano explica como Waldo é o produto perfeito: ele é anti-política e contra o sistema, mas ao fazê-lo, é possível associar quase qualquer agenda política ao personagem, sem ninguém notar. Além disso, o agente continua, as pessoas simplesmente gostam dele, ele é divertido.
Em um podcast recente, Pablo Marçal já afirmou que o eleitor médio não assiste ao debate, mas que ele precisa comparecer para produzir cortes que vão viralizar. Neste próprio debate do dia 01/09, ele admitiu que quem deseja ouvir as propostas, pode ir no site do TRE e ler o plano de governo, mas as pessoas simplesmente não querem isso. Ele simplesmente escancarou uma verdade muito dura de ser engolida, as pessoas não ponderam propostas e diagnósticos públicos, as pessoas gostam ou se identificam e votam. Cabe lembrar que “The Waldo Moment” foi lançado em 2013 e os paralelos com Marçal e a política brasileira atual são assustadores, quase premonitórios.
Assim como muitos, eu não tenho uma resposta para lidarmos com a política-espetáculo em tempos de pós-verdade e das redes sociais. Só posso dizer que será muito difícil para os outros candidatos sérios e comprometidos reconquistarem a atenção e o afeto dos eleitores. Talvez eles tenham que jogar o jogo do entretenimento debochado e confrontador, infelizmente. Ou talvez, a medir pelo sucesso nas pesquisas do coach condenado, simplesmente nossa democracia seja só uma piada de mal gosto.
Por Tomás Pinho
Mestre em História Social pela USP
