Nair de Teffé foi a primeira caricaturista mulher de que se tem notícia no mundo. Além do desenho mordaz, Nair era pianista, violonista, pintora e cantora. Seus olhos azuis e sua inteligência fulgás conquistaram o então presidente Hermes da Fonseca, cujo intelecto acompanhava os traços de Nair: minimalista.
Hermes foi um marechal eleito na eleição mais polarizada da história da República Velha, contra o insuspeito Ruy Barbosa, cuja erudição tropeçava no ego. Eram grandes demais para ocupar a presidência. Hermes, viúvo, casou-se durante o mandato. Nair era revolucionária, promoveu a arte dos morros e trouxe a cultura do povo para dentro do Catete, então palácio presidencial.
Em 1914, em um de seus saraus, a primeira-dama, em pessoa, executou, no violão, a obra Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga — um pré-samba meio maxixe, cuja dança se aproximava de algo lascivo. O Brasil entrou em pânico: como uma senhora executaria tal obra nos salões da burguesia brasileira?
Ruy Barbosa, o opositor derrotado, foi à tribuna do Senado e fez a declaração que lhe era peculiar: arrogante, prepotente e desconectado, disse:
“A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”
Wagner virou o compositor favorito do nazismo. Hermes, um retalho na história. Ruy, o jurista favorito dos liberais brasileiros. Já o samba — bem, o samba virou o Brasil.
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Fundado em 1961, o Cacique de Ramos começou num canto modesto da Rua Gomensoro, mas foi na Rua Uranos, em Olaria, que fincou sua tenda — ou melhor, seu altar sagrado do samba. Dali brotaram lendas: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho. O bloco virou ponto de peregrinação, desfilou na Rio Branco, depois migrou para a República do Chile, sempre às 20h, como quem diz “cheguei, tirem o salto”. Ganhou medalha, virou enredo e ainda hoje desfila carregando no estandarte a alma do samba e o deboche elegante de quem nunca precisou pedir licença pra fazer história.
O presidente era Ubirajara Felix do Nascimento, o Bira — cujo apelido virou o cargo: presidente. Privilégio daqueles que ocuparam a responsabilidade histórica durante tempo suficiente para confundirem-se com a própria existência. Bira é presidente. Presidente é Bira.
O mandatário, que nos deixa na manhã deste domingo, era filho de pai boêmio e mãe de santo. Da boemia e do terreiro surgiu a renovação do samba, um dos recortes epistemológicos dessa música. Se Nair de Teffé rompeu a barreira social entre os salões e as rodas de samba, o Cacique rompeu os resquícios folclóricos do gênero, tornando-o efetivamente moderno, nos termos em que o conhecemos hoje.
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Se a guitarra elétrica é o símbolo do rock, em sua dissidência do RnB, o tantã é o símbolo do novo samba surgido no Fundo de Quintal. Sereno, percussionista do grupo, percebendo que o surdo (instrumento) abafava os demais, adaptou-o para o tantã, cuja marcação era muito próxima dos bumbos de rock, tornando a marcação mais seca. Parece banal, mas tal postura revolucionou todas as rodas de samba do Brasil até hoje. Em todo lugar, em cada esquina, em cada bar, o instrumento se popularizou. Não há muitos exemplos do tipo, principalmente no século passado. O tantã é a guitarra brasileira, enfim.
Cacique de Ramos, Bira presidente e Fundo de Quintal são responsáveis pela modernização do estilo-mãe da música brasileira. A Bossa Nova é uma dissidência, mais sofisticada e cosmopolita. A transformação do Cacique tinha outro objetivo: modernizar e trazer o folclórico estilo para mais perto do fordismo tardio no Brasil. Os detratores dirão que isso acabará no Molejo e no pagode 90; outros dirão que foi a mudança necessária para tirar o samba da marginalidade, na indústria fonográfica.
Finalmente os sambistas puderam gravar — em condições precárias, mas minimamente dignas.
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Bira deixa um legado arquitetônico digno de Niemeyer. É um desenhista da cultura popular brasileira. Descansa no panteão dos imortais. Viverá muito, ainda.
